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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Entre joaninhas e a falta de você.

Ao mesmo tempo em que o sol começava a ir embora, suas pernas e seu quadril formigavam mais que tudo, fazendo com que ela não sentisse mais o leve roçar da grama molhada contra suas pernas descobertas. Tombando a cabeça para trás, deixou o já conhecido cheiro de orvalho entrar por suas narinas e navegar dentro de si, tal cheiro que trazia um enorme frescor e uma intensa saudade.
Mais algumas horas se passaram e o sol já estava longe, o céu, antes azul claro, agora sorria laranja, e as flores do campo pareciam combinar estupidamente com a cor do mesmo. Riu, pensando como tudo isso ficaria bonito cercado por uma moldura e pintado por alguém que realmente soubesse trazer toda aquela sensação de liberdade para dentro de um quadro qualquer.
As incansáveis joaninhas que tentavam entrar dentro de suas sapatilhas a faziam esquecer, mesmo que por pouco, toda a tristeza que sentia em seu coração. Mas logo esse pouco virava nada e aquela dorzinha paradoxa, que ao mesmo tempo conseguia ser imaginária e também misteriosamente aguda, voltava a cutucar o lado esquerdo de seu peito, onde insistia em dizer que já morou um coração.
Tudo parecia tão lindo.
Tudo parecia tão perfeito.
Exceto por sua presença que destoava o resto da composição.
Nessa primavera, ela não fazia parte daquela paisagem, ela estava ali da mesma maneira que uma mosca pousa sobre um quadro recém pintado, atrapalhando toda a beleza e deixando um pedaço, por menor que seja, sem tinta, perdido.
E, agora deitada, já não sentindo mais noventa por cento de seu corpo, fechou os olhos, desejando que aquele buraco do lado esquerdo de seu peito formigasse também, deixando-a livre da constante dor.
Alguns minutos depois, o incômodo havia passado e apesar de manter os olhos fechados, ela podia se enxergar, correndo feliz pelo mesmo campo, na primavera passada, notando que o detalhe mais importante da paisagem era a forma como sua mão era acolhida pela dele, que também corria ao seu lado, completando a lacuna que faltava para o fim da obra.
As joaninhas voltaram a escalar seus tornozelos e o elo entre suas mãos e as dele foi se desfazendo, trazendo-a de volta para a realidade, onde nem o melhor remédio do mundo tiraria aquele pulsar latejante, aquela dor constante, aquela felicidade distante.
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Primeiro de tudo, queria agradecer todos os elogios pelo último post e contar que eu ganhei o concurso (yey!). Aqui vocês podem ver os outros ganhadores.
Aproveitando a minha falta de idéias, decidi participar de outro concurso, agora do Bloínques, no qual eu precisava redigir um conto a partir da foto ali de cima.
Espero que gostem e desculpem a demora para atualizar, não me culpem, culpem a semana de recuperação e, por favor, culpem a matemática, a física e a química.
Ps: 58 seguidores! Eu nunca, nunca mesmo, achei que esse blog iria para frente e, não poderia estar mais feliz.

Beijos e continuem escutando o que nossas mamães sempre dizem e façam (ou não) proveito disso.


terça-feira, 13 de julho de 2010

Rabiscado, sujo e memorizado.

Entrei no quarto correndo, abrindo a porta sem usar um pingo de delicadeza, me arrependendo logo depois de ouvir o barulho desta contra a parede e meu pai gritando de susto. Já era a terceira vez que fazia aquele mesmo caminho após passar 23 minutos rondando a casa inteira em busca de algo, ou "algos" melhor dizendo, que não pareciam estar querendo ser encontrados.
Olho novamente no armário, abro todas as gavetas, tiro tudo que antes estava dentro delas, mesmo sabendo que alí não estaria o que queria encontrar...
- Mãe, MÃE!
- Júlia, eu já disse...
- "Desiste, você perdeu". Eu sei que você já disse, você faz questão de continuar repetindo a mesma frase um zilhão de vezes, enquanto poderia estar me ajudando.
- Júlia, dentro dessa casa, seu tênis não está, tente entender isso. Chegamos de viagem e ele não estava em nenhuma mala, muito menos no carro, o que nos leva a conclusão de que para cá ele não voltou mais. Fique tranquila, você tem mais 2 pares de tênis intactos no seu ármario. E, quem sabe, foi até para o bem de todos essa perda, assim eu não preciso te ver mais com aquela "coisa" suja e rabiscada nos pés.
Nessa hora que realmente pensei que mamãe e sua mente brilhante poderiam estar por trás disso, mas no fundo, eu sabia que nunca niguém se meteria com as minhas coisas a ponto de escondê-las.
- O que você não entende, mãe, é que aquela "coisa" não era só um tênis para mim, eu passei a maioria dos momentos mais importantes com ele...
- Chega de nostalgia menina, não se apegue à objetos.
Podia mesmo parecer estúpido continuar alí parada pensando sobre como seria minha vida daqui pra frente sem o meu all star antigo, eu poderia comprar um outro igual mas demoraria muito tempo para ele virar o que o outro era e, principalmente, não haveria outros shows do McFly, não haveria outra oitava série e tudo o que eu passei com ele não se repetiria.
Em o que irei me apegar, se não à objetos? Pessoas? Prefiro comprar um All Star novo.

(Tudo escrito aqui aconteceu realmente, se você, morador de Minas Gerais, encontrar por aí um tênis da marca All Star, bege -aquilo realmente não é mais branco-, cheio de rabiscos, com cadarços diferentes e histórias para contar, não se apegue, me devolva.)


domingo, 25 de abril de 2010

Inconstante

Sentindo uma de minhas mãos arder com o contato do copo quente de café e a outra apertar com força a tecla "enter" do teclado, senti a tão esperada sensação de trabalho feito.
Após checar três vezes a caixa de saída -para ter certeza de que havia enviado-, olhei ao meu redor, vendo que a redação continuava cheia. Dia de fechamento da revista era sempre assim, o clima tenso, sem pausas para lanches e conversas, murmúrios de reclamações surgiam a todo momento, junto com o barulho de dentes roendo unhas e dedos batucando na mesa. O rádio ficava desligado -o que era raro, mas preciso-.
Tombando levemente minhas costas no encosto da cadeira, me sentia aliviada. O trabalho estava pronto, as fotos estavam no lugar certo, a capa estava perfeita, o que não era tão difícil conseguir com a foto do Pattinson estampando-a. Era incrível como ele continuava lindo. Ah, os britânicos, perfeitos como sempre.
Recolhi meus óculos de grau, meu Ipod, o copo grande de café e o celular, jogando-os na bolsa. Tirei o casaco, que encontrava-se pendurado na cadeira, segurando-o com a mão livre. Caminhei por toda a redação, desejando bom final de semana a todos, menos a Alisson. Eu simplesmente não gostava dela, estava na cara que estava alí apenas pelo motivo de namorar secretamente o chefe da editora -mas isso somente eu sabia, desde o dia que os encontrei no banheiro, juntos, na mesma cabine-.
Forcei a porta de saída tentando abri-la, ato que era quase impossível devido ao vento que corria contra a porta. Conseguindo o que queria, tive outra luta com o vento, que impedia-me de vestir o casaco.
Sentindo o sol forte incomodar meus olhos, procurei por meus óculos escuros na bolsa, colocando-os em seguida. Eu adorava o fato de Bristol ser tão inconstante a ponto de me fazer usar óculos por causa do sol forte e, ao mesmo tempo, forçar-me a vestir esse enorme casaco por causa do vento gelado.
Meu estômago já contorcia-se de fome, fazendo-me andar mais rápido para chegar logo à estação. Sim, estação. Eu não consegui aprender a dirigir do lado contrário -eu nem ao menos havia tentado, continuo, infelizmente, desistindo fácil das coisas-.
Correndo, para não perder o trem, tentava não tropeçar em meus próprios cadarços desamarrados e tentava aguentar a forte dor que sentia em meu calcanhar, causada pelo forte atrito do all star.
Já sentada no desconfortável banco do metrô, meu Ipod fazia-me companhia. Sentindo um aperto no peito ao olhar o grupo de amigos que se encontrava a minha frente, sentia minha cabeça doer.
Não é fácil morar longe do país natal, não mesmo. Minha cabeça doía por ter que pensar duas vezes para falar, ter que formular a frase em outro idioma, apesar de ser automático, cansava. Sentia falta de falar português com alguém -sem contar as ligações de mamãe no meio da noite, dando-me conselhos como sempre-, sentia falta de casa, estava cansada. Com medo de estar arrependida.
Era isso o que eu queria, certo? Morar em outro país, viver no frio, trabalhar em uma revista, ser independente, viver por mim mesma. Eu tinha tudo o que queria, mas meu peito ainda apertava as vezes. A sensação era como quando íamos pela primeira vez à casa de um amiguinho. Queríamos estar lá, ficávamos ansiosos a semana inteira para ir lá, mas doía ver o carro de mamãe ir embora.
O baque causado pelo freio do metrô tirou-me dos meus pensamentos e, rapidamente, saí do transporte, já sentindo minhas bochechas queimarem com o encontro do vento gelado.
Cansada, parei em frente a porta de meu apartamento, subir cinco lances de escada não era muito estimulante em uma sexta-feira a noite.
De cabeça baixa, entro em casa, aparentando dor de cabeça, tpm, saudades e fome, encontrando, bem em minha frente, meu depósito de emoções.
Aquele que me ouvia, me entendia, me chateava -as vezes- e me ajudava, sempre, estava ali, com uma bandeja em mãos onde uma vasilha cheia de brigadeiro fazia companhia a um comprimido para dor de cabeça.
Ouço um "boa noite, princesa" dito em um português forçado, errado, perfeito, acompanhado de um sorriso confortante.
E, mais uma vez, sinto um grande alívio atingir meu ser.
Era difícil sim, mas tudo ficava mais fácil com ele ao meu lado.
Ele que era inglês, frio, arrogante e egoísta, mas sabia ser quem eu precisava, sempre.
Ah, os ingleses, sempre tão perfeitos!
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Um conto, só para tirar minha cabeça do tanto de textos dissertativos que sou obrigada a escrever no colégio.
Adoro poder escrever com oralidade, escrever EU milhares de vezes, adoro meu ponto de vista, adoro não pensar em notas.
Mamãe anda me dizendo para estudar, eu só não aguento mais.
Quero ser independente, morar em Bristol, editar uma revista, andar de metrô, morar no quinto andar e ter um namorado perfeito.
Enquanto isso, sonho.