Olho novamente no armário, abro todas as gavetas, tiro tudo que antes estava dentro delas, mesmo sabendo que alí não estaria o que queria encontrar...
- Mãe, MÃE!
- Júlia, eu já disse...
- "Desiste, você perdeu". Eu sei que você já disse, você faz questão de continuar repetindo a mesma frase um zilhão de vezes, enquanto poderia estar me ajudando.
- Júlia, dentro dessa casa, seu tênis não está, tente entender isso. Chegamos de viagem e ele não estava em nenhuma mala, muito menos no carro, o que nos leva a conclusão de que para cá ele não voltou mais. Fique tranquila, você tem mais 2 pares de tênis intactos no seu ármario. E, quem sabe, foi até para o bem de todos essa perda, assim eu não preciso te ver mais com aquela "coisa" suja e rabiscada nos pés.
Nessa hora que realmente pensei que mamãe e sua mente brilhante poderiam estar por trás disso, mas no fundo, eu sabia que nunca niguém se meteria com as minhas coisas a ponto de escondê-las.
- O que você não entende, mãe, é que aquela "coisa" não era só um tênis para mim, eu passei a maioria dos momentos mais importantes com ele...
- Chega de nostalgia menina, não se apegue à objetos.
Podia mesmo parecer estúpido continuar alí parada pensando sobre como seria minha vida daqui pra frente sem o meu all star antigo, eu poderia comprar um outro igual mas demoraria muito tempo para ele virar o que o outro era e, principalmente, não haveria outros shows do McFly, não haveria outra oitava série e tudo o que eu passei com ele não se repetiria.
Em o que irei me apegar, se não à objetos? Pessoas? Prefiro comprar um All Star novo.
(Tudo escrito aqui aconteceu realmente, se você, morador de Minas Gerais, encontrar por aí um tênis da marca All Star, bege -aquilo realmente não é mais branco-, cheio de rabiscos, com cadarços diferentes e histórias para contar, não se apegue, me devolva.)